Dia da Mãe: A Obra Inacabada de Ser Mãe (e Pai)
Ser mãe ou pai não é um papel. É uma escolha diária.
Uma construção lenta, delicada, imperfeita.
É um ofício de alma. Uma prática criativa. Uma entrega que começa no corpo — e só termina no tempo dos nossos filhos, não no nosso.
Neste Dia da Mãe, não quero flores.
Quero verdade.
Quero poder dizer, sem medo, que educar cansa.
Que amar tanto também dói.
Que há dias em que não sabemos o que estamos a fazer — mas fazemos na mesma, porque desistir não é opção.
A parentalidade consciente não é uma moda.
É um compromisso.
É o contrário da resposta automática. Do castigo por reflexo. Do grito que repete o grito que ouvimos em crianças.
É o lugar onde paramos para escutar, para reparar, para cuidar com presença e intenção.
Ser mãe ou pai de forma consciente não significa perfeição.
Significa coerência.
Significa saber pedir desculpa.
Saber refazer.
Saber que estamos a criar seres humanos inteiros — e que o exemplo vale mais do que qualquer regra.
Mas é difícil. Muito difícil.
Porque ninguém nos ensinou.
Porque crescemos a engolir emoções, a calar perguntas, a obedecer por medo.
E agora pedem-nos que façamos diferente, com as ferramentas que estamos ainda a aprender a usar.
E mesmo assim, escolhemos.
Todos os dias.
Mesmo cansados, mesmo cheios de dúvidas, escolhemos.
A arte tem sido, para tantos de nós, um caminho de regresso à infância.
Um lugar onde o que sentimos ganha forma.
Onde a palavra volta a ter corpo.
Onde a ferida pode ser dita — e transformada.
Educar pelas artes é educar pela liberdade.
Pela experimentação.
Pela escuta do invisível.
Não há pincel que julgue.
Não há música que castigue.
Não há poema que nos mande calar.
Na arte, tudo cabe.
Na educação tradicional, nem sempre.
Precisamos urgentemente de abrir espaço para a criatividade nas nossas casas, nas nossas escolas, nos nossos vínculos.
Precisamos de ensinar que sentir não é fraqueza.
Que dançar pode ser forma de aprender limites.
Que pintar pode ser forma de regular emoções.
Que o teatro pode ensinar empatia melhor do que qualquer sermão.
Educar pelas artes é educar para o mundo.
Porque quem sabe expressar-se, sabe escutar.
Porque quem imagina, constrói.
Porque quem se conhece, cuida melhor do outro.
Ser mãe ou pai é uma obra inacabada.
Não há manual.
Há presença.
Há tentativa.
Há desejo de fazer melhor — mesmo quando repetimos padrões, mesmo quando falhamos.
E há amor.
Amor desproporcional, vertiginoso, quase brutal na sua intensidade.
Amor que não se mede nem se contabiliza.
Que não pede troco.
Que fica, mesmo quando o chão foge.
Ser mãe ou pai é estar disponível para ser espelho.
Para ser porto.
Para ser o chão e o céu ao mesmo tempo.
E isso exige tudo.
Corpo. Tempo. Paciência. Perdão.
Exige que sejamos artistas da relação.
Que saibamos reinventar a linguagem.
Desenhar novas formas de estar.
Compor o silêncio.
Improvisar, dançar, rasgar — e voltar a unir.
Hoje, celebro todas as mães.
As que dão colo.
As que educam com firmeza e ternura.
As que aprendem a fazer diferente.
As que choram às escondidas e depois voltam com o sorriso.
Celebro também os pais que não têm medo da sua parte maternal.
Que cuidam com mãos inteiras.
Que sabem escutar sem mandar calar.
Que estão, mesmo quando não sabem como.
Porque estar — de verdade — é o mais difícil e o mais importante.
Celebro os cuidadores, os avós, os professores, os tios, os irmãos mais velhos.
Todos os que assumem o lugar da parentalidade como arte e acto de amor.
Neste Dia da Mãe, não queremos perfeição.
Queremos presença.
Queremos escuta.
Queremos espaço para continuar a aprender.
Porque educar é uma criação conjunta.
Um acto artístico.
Uma construção diária feita de falhas e beleza.
E porque, no fim, ser mãe ou pai é isso mesmo:
um acto de amor criativo que se faz com o corpo inteiro.


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